AVALIA‚ÌO DO pH E DA TITRABILIDADE çCIDA DE REFRIGERANTES

EVALUATION OF THE pH AND ACID TITRABILITY OF SOFT DRINKS

 

Verona A*, Oliveira AST**, Rodrigues JA***, Lima-Arsati YBO****

 

RESUMO: O consumo de bebidas com pH ‡cido, especialmente abaixo de 4,5, Ž considerado como um fator de risco para o desenvolvimento de les›es de eros‹o dental. No decorrer dos anos diversos trabalhos comprovam que as bebidas industrializadas possuem car‡ter ‡cido. Este trabalho investigou e comparou o pH e a titrabilidade ‡cida de 16 refrigerantes vendidos no mercado Brasileiro. Foram obtidas 6 unidades de cada bebida. Foi utilizado medidor de pH calibrado para avaliar o pH, e titula�‹o com NaOH 1N para avaliar a titrabilidade ‡cida no pH 4,5 e 7,0; logo ap—s a quebra do lacre. A mŽdia das 6 avalia�›es de cada refrigerante foi utilizada para a an‡lise estat’stica. Os dados de pH foram submetidos ˆ one-way ANOVA e teste de Tukey (a = 0.05). Todas as bebidas apresentaram pH abaixo do pH cr’tico (4,5) para desmineraliza�‹o dental e podem ser consideradas como fator de risco para o desenvolvimento de eros‹o dental. Houve uma grande varia�‹o na titrabilidade ‡cida, sendo que ao pH 4,5 n‹o houve correla�‹o entre o pH das bebidas e a titrabilidade, mas ao pH 7,0 houve correla�‹o negativa entre pH e titrabilidade ‡cida. O sabor dos refrigerantes afetou os resultados de pH e titrabilidade ‡cida.

PALAVRAS-CHAVE: pH.Titrabilidade çcida. Eros‹o Dental. Refrigerantes.

 

ABSTRACT: The consumption of acidic beverages, especially with pH lower than 4.5, is considered a risk factor for dental erosion. Throughout recent years, several studies have shown that manufactured beverages have acidic pH. This study evaluated and compared the pH and the acid titrability of 16 Brazilian soft drinks. Six unites of each product, were evaluated using a calibrated pHmeter, immediately after opening the beverage bottle. After that, the beverages were buffered at pH 4.5 and 7.0 with a 1N NaOH solution. The average of the six values for each beverage was considered for statistical analysis. The data were submitted to ANOVA and Tukey«s test (a= 0.05). All soft drinks presented pH lower than the critical for dental demineralization (4.5) and can be considered as a risk factor to dental erosion development. There was a high variation in the acid titrability among the soft drinks. There was no correlation between pH and acid titrability at pH 4.5, but there was a correlation between pH and acid titrability at pH 7.0, since the most acidic soft drinks needed more NaOH to be neutralized. The different flavor of the soft drinks affected their values of pH and acid titrability.

KEYWORDS: pH, Acid Titrability, Dental Erosion, Soft Drinks.

 

INTRODU‚ÌO

            A evolu�‹o da odontologia e a introdu�‹o dos conceitos voltados para a promo�‹o de saœde, aliados ao aumento da expectativa de vida, t�m contribu’do com a crescente manuten�‹o dos elementos dentais na cavidade bucal. Esse fato e a concomitante mudan�a de h‡bitos alimentares e comportamentais contribuem para o surgimento de outras altera�›es da estrutura dental1.

Com o decl’nio da incid�ncia da principal doen�a dental – a c‡rie – em diversas regi›es do mundo, outras les›es que afetam as estruturas dentais, como a eros‹o, vem assumindo uma posi�‹o de destaque entre as patologias bucais mais prevalentes2. A eros‹o dental Ž a perda superficial de tecido dental mineralizado causada por ‡cidos de origem n‹o-bacteriana 3, 4.

Inicialmente, a caracter’stica cl’nica mais comum da les‹o de eros‹o dental Ž a perda do brilho do esmalte, a superf’cie apresenta-se lisa, em forma de ÒUÓ ou pires, a les‹o mostra-se larga e rasa, sem ‰ngulos ou cavidades3. Quando atinge a dentina, provoca hipersensibilidade. Quando acomete dentes restaurados, as restaura�›es tornam-se proeminentes, pois muitas vezes se desgastam menos do que a estrutura dental 5,6.

Diversos fatores contribuem no processo de eros‹o dental, sejam estes oriundos de fontes extr’nsecas, que est‹o relacionadas a h‡bitos alimentares, ou intr’nsecos, relacionados ˆ exposi�‹o dos dentes ao suco g‡strico (como em casos de bulimia nervosa e refluxo gastresof‡gico), o que faz do Cirurgi‹o-Dentista um profissional decisivo no diagn—stico dessas altera�›es6. Como a eros‹o est‡ mais frequentemente associada ˆ dieta, Ž muito importante a avalia�‹o dos h‡bitos alimentares, uma vez que alimentos e bebidas industrializados muitas vezes s‹o ‡cidos, em fun�‹o da adi�‹o dos acidulantes7,8.

Rodrigues et al. (2008)9, avaliaram 30 bebidas industrializadas vendidas no estado de S‹o Paulo e observaram que embora as ‡guas aromatizadas e sucos light possuam maior pH (potencial hidrogeni™nico) que os refrigerantes, todos apresentam pH abaixo do cr’tico para desmineraliza�‹o dental. E sugeriram que seu consumo em excesso (tanto em quantidade quanto em frequ�ncia) deve ser considerado como um fator de risco para eros‹o dental.

Essa les‹o de eros‹o pode ser formada quando a superf’cie do esmalte dental (formado por hidroxiapatita) for submetida a uma solu�‹o de pH inferior a 5,5; deve-se considerar tambŽm que essa perda mineral do esmalte dental pode acontecer apenas quando o pH for inferior a 4,5 para aqueles cristais formados por fluorapatita5. Em acrŽscimo, n‹o s— o pH abaixo desses valores cr’ticos pode causar desmineraliza�‹o, mas tambŽm o fato da solu�‹o ser subsaturante em rela�‹o aos minerais do dente (c‡lcio e fosfato, principalmente).

Outro fator a ser considerado para caracterizar uma bebida como potencialmente erosiva Ž a sua titrabilidade ‡cida, que se refere ˆ adi�‹o de uma base forte atŽ que o pH se eleve aos valores desejados. Enquanto o pH de uma solu�‹o est‡ relacionado ˆ dissocia�‹o do ‡cido em ’ons hidrog�nio (representada por seu pka), a titrabilidade ‡cida depende da exist�ncia de regi›es de tamponamento apresentadas por esse ‡cido (pr—ximas aos valores de pka). Nessas regi›es de tamponamento (que ocorrem em valores de pH entre uma unidade abaixo e uma unidade acima de seu pka), durante a adi�‹o de uma base forte por exemplo, o pH n‹o se eleva t‹o bruscamente10.

 Na cavidade bucal, pode ocorrer o tamponamento do pH dessas bebidas devido ˆ presen�a de sistemas tamp‹o na saliva, que justamente evitam varia�›es bruscas do pH da cavidade bucal. Dentre esses sistemas, destaca-se o sistema tamp‹o bicarbonato. Sua a�‹o baseia-se na liga�‹o de ’ons bicarbonato aos ’ons hidrog�nio provenientes dessas bebidas, resultando em ‡cido carb™nico e, sucessivamente, em g‡s carb™nico e ‡gua11.

Nesse contexto, Ž extremamente importante, n‹o somente avaliar o pH das bebidas de grande consumo na atualidade, mas tambŽm determinar a titrabilidade ‡cida das mesmas.

 

OBJETIVO

Este trabalho teve como objetivo determinar o pH e a titrabilidade ‡cida de 16 refrigerantes encontrados no mercado brasileiro.

 

MATERIAL E MƒTODOS

Amostra

            No presente trabalho foram estudados 16 diferentes tipos de bebidas industrializadas, tendo sido avaliados seis unidades de cada tipo, sendo duas de cada lote (tr�s lotes diferentes foram avaliados; quadro 1).

Avalia�‹o do pH

            O pH foi avaliado utilizando-se um peag‰metro (eletrodo de pH acoplado a um potenci™metro, RbLAb, S‹o Paulo, SP, Brasil) previamente calibrado em solu�›es tamp›es com pH 7,0 e pH 4,0.

Avalia�‹o da titrabilidade ‡cida

            A titrabilidade ‡cida foi realizada por titulometria, ou seja, pela determina�‹o do volume de base (hidr—xido de s—dio, NaOH, 1M) adicionado a 50 ml de cada amostra atŽ que o pH final fosse 4,5 e 7,0. O pH foi medido como descrito anteriormente.

Bebidas

Fabricante

Lotes

Coca-Cola¨

Coca-Cola

p130810

41010

52011

Coca-Cola Plus¨

Coca-Cola

p210511

p180411

p200215

Coca-Cola Zero¨

Coca-Cola

p120810

p120920

p130915

Conven�‹o Abacaxi¨

Refrigerantes Conven�‹o

230910‚17

230910‚16

200910

Conven�‹o Uva¨

Refrigerantes Conven�‹o

230907

260900

240907‚21

Dolly Cola¨

Dolly

AE201010

AE140811

AE210511

Fanta Uva¨

Coca-Cola

61110

181010

91111

Fanta Uva Zero¨

Coca-Cola

40111

220810

P230910

Fanta Laranja¨

Coca-Cola

151110

P270610

P260810

Fanta Laranja Zero¨

Coca-cola

P031110

P061016

P061110

Guaran‡ Ant‡rtica¨

AmBev

110211

130010

160116

Guaran‡ Ant‡rtica Zero¨

AmBev

Pj18111

Pj18114

Pj021210

Guaran‡ Kuat Zero¨

Coca-Cola

181110

181109

181010

Pepsi Light¨

AmBev

160910

Ja0323

P200710

Pepsi Light Plus¨

AmBev

P200710

P200610

Ja0273203

Vitt`s Lim‹o¨

Refrigerantes Conven�‹o

061008-30

250912‚20

61008

            Quadro 1- Bebidas estudadas, fabricante e lotes.

 

An‡lise estat’stica dos resultados

            Ap—s a verifica�‹o da distribui�‹o normal dos dados, foi realizada one-way ANOVA e teste de Tukey para compara�‹o dos dados de pH. Os dados de titrabilidade foram submetidos ˆ two-way ANOVA e teste de Tukey considerando os fatores bebidas e pH (4,5 e 7,0). Foram calculados os coeficientes de correla�‹o linear de Pearson (R) entre os valores de pH, titrabilidade ‡cida para pH 4,5 e 7,0. O n’vel de signific‰ncia adotado foi de 5%.

 

RESULTADOS

Avalia�‹o do pH

            Analisando cada refrigerante individualmente, nenhum dos itens obteve pH maior do que 3,65, e levando em considera�‹o as fontes de varia�‹o, observou-se que as bebidas submetidas aos testes possu’am em mŽdia pH = 3,1; variando entre 2,60 e 3,65, podendo ser observado tambŽm que o Vitt`s lim‹o e os refrigerantes ˆ base de cola, exceto a Pepsi Light Plus, possuem pH significativamente mais baixos do que os outros refrigerantes analisados, como pode ser observado na tabela 1 e gr‡fico 1:

 

Tabela 1- MŽdias (± desvio padr‹o) dos valores de pH para as bebidas estudadas.

Bebidas

pH

Coca-Cola Plus

2,60 (± 0,15)a

Vitt`s Lim‹o

2,62 (± 0,19)a

Dolly Cola

2,65 (± 0,15)a

Coca-Cola

2,67 (± 0,12)a

Coca-Cola Zero

2,73 (± 0,12)a

Pepsi Light

2,73 (± 0,08)a

Conven�‹o Abacaxi

3,08 (± 0,10)b

Pepsi Light Plus

3,08 (± 0,39)b

Fanta Laranja Zero

3,22 (± 0,26)b

Conven�‹o Uva

3,27 (± 0,36)b

Guaran‡ Ant‡rtica Zero

3,33 (± 0,10)b

Guaran‡ Kuat Zero

3,37 (± 0,12)b

Guaran‡ Ant‡rtica

3,45 (± 0,10)b

Fanta Uva

3,53 (± 0,08)b

Fanta Uva Zero

3,55 (± 0,14)b

Fanta Laranja

3,65 (± 0,05)b

Letras diferentes entre as linhas indicam diferen�a estat’stica significativa (ANOVA + Tukey).


Gr‡fico 1- Compara�‹o gr‡fica do pH das bebidas estudadas.

 

Avalia�‹o da titrabilidade ‡cida

 

            A an‡lise de vari‰ncia demonstrou diferen�as significativas para o fator ÒBebidaÓ, para o fator ÒpHÓ e para a intera�‹o desses fatores (p<0,05).

            A Coca-Cola, Coca-Cola Plus, Pepsi, Conven�‹o Uva, Dolly Cola, Fanta Uva, Fanta Uva Zero, Fanta Laranja, Fanta Laranja Zero, Guaran‡ Ant‡rtica, Guaran‡ Ant‡rtica Zero, Guaran‡ Kuat Zero, Pepsi Light, Pepsi Light Plus n‹o apresentaram diferen�as significativas, quando comparadas entre si. O refrigerante Conven�‹o Abacaxi apresentou valores de titrabilidade ‡cida intermedi‡rios. O refrigerante Vitt`s Lim‹o necessitou de maior volume de base para que seu pH atingisse 4,5 e 7,0.

 

Tabela 3- MŽdias de NaOH (em ml) utilizado para titula�‹o ao pH 4,5 e pH 7,0, desvio padr‹o e resultados do teste de Tukey para as bebidas estudadas.

Bebidas

pH 4,5

pH 7,0

Coca-Cola

1,2 (±0,3)BCa

2,2 (±0,8)BCDb

Coca-Cola Plus

0,7 (±0,2)BCa

2,2 (±0,3)BCDb

Coca-Cola Zero

0,5 (±0,1)Ca

2,8 (±0,3)Bb

Conven�‹o Abacaxi

1,7 (±0,2)ABa

2,6 (±0,2)BCb

Conven�‹o Uva

1,1 (±0,4)BCa

2,6 (±0,4)Bb

Dolly Cola

0,9 (±0,1)BCa

1,4 (±0,2)CDa

Fanta Uva

0,8 (±0,2)BCa

2,4 (±0,5)BCDb

Fanta Uva Zero

0,5 (±0,3)BCa

2,1 (±0,4)BCDb

Fanta Laranja

0,9 (±0,4)BCa

1,6 (±0,5)BCDb

Fanta Laranja Zero

1,0 (±0,2)BCa

1,4 (±0,3)Da

Guaran‡ Ant‡rtica

1,0 (±0,2)BCa

2,2 (±0,3)BCDb

Guaran‡ Ant‡rtica Zero

0,8 (±0,1)BCa

1,8 (±0,1)BCDb

Guaran‡ Kuat Zero

0,4 (±0,2)Ca

1,8 (±0,2)BCDb

Pepsi Light

0,5 (±0,1)Ca

2,5 (±0,2)BCDb

Pepsi Light Plus

0,6 (±0,5)BCa

2,3 (±0,6)BCDb

Vitt`s Lim‹o

2,6 (±0,6)Aa

5,6 (±2,9)Ab

Letras maiœsculas distintas indicam diferen�a estat’stica significativa entre as linhas, e letras minœsculas distintas, entre as colunas.

 


Gr‡fico 2- Compara�‹o gr‡fica da titrabilidade ‡cida das bebidas estudadas.

N‹o houve correla�‹o linear entre os valores de pH e titrabilidade ao pH 4,5 (p = 0,15), ao pH 7,0 houve uma correla�‹o negativa significativa (p = 0,0012; R = - 0,325). Houve correla�‹o positiva significativa entre os valores de titrabilidade ‡cida para pH 4,5 e 7,0 (p< 0,0001; R = 0,527).

 

 DISCUSSÌO

Com a diminui�‹o da preval�ncia e da incid�ncia da doen�a c‡rie, maior aten�‹o tem sido dada a outras doen�as bucais. Nesse contexto se inclui a eros‹o dental, que Ž a desmineraliza�‹o dos tecidos dentais (esmalte e/ou dentina) causada por subst‰ncias ‡cidas de origem n‹o-bacteriana 2,3,4. Estudos cl’nicos e epidemiol—gicos t�m encontrado associa�‹o entre o consumo exagerado de bebidas ‡cidas, especialmente aquelas ˆ base de cola, com a eros‹o dental12. Esse consumo exagerado Ž caracterizado por longa dura�‹o e grande frequ�ncia 4,5,7.

Vale lembrar que, como a eros‹o dental n‹o est‡ relacionada ˆ produ�‹o de ‡cidos por bactŽrias a partir de carboidratos ferment‡veis, a presen�a ou n‹o de a�œcares nesses refrigerantes n‹o interfere na sua ocorr�ncia. Sendo assim, o objeto do atual estudo foram os refrigerantes, contendo ou n‹o a�œcares, que s‹o bebidas largamente consumidas no Brasil e no mundo.

Todos os refrigerantes avaliados apresentaram pH abaixo do pH cr’tico para desmineraliza�‹o dental, sendo que o Vitt`s Lim‹o e as bebidas ˆ base de Cola (Coca-Cola Plus, Dolly Cola, Coca-Cola, Coca-Cola Zero e Pepsi Light) apresentaram pH significativamente mais baixo do que os demais (Conven�‹o Abacaxi, Pepsi Ligth Plus, Fanta Laranja Zero, Conven�‹o Uva, Guaran‡ Ant‡rtica Zero, Guaran‡ Kuat Zero, Guaran‡ Ant‡rtica, Fanta Uva, Fanta Uva Zero e Fanta Laranja). Esse resultado vai de acordo com dados da literatura 8, 9, 12.

A acidez dos refrigerantes ˆ base de cola j‡ havia sido destacada por Jendosttir et al.13, que atribu’ram maior potencial erosivo a estas bebidas quando comparadas a outros refrigerantes. Para uma melhor compreens‹o das diferen�as entre os refrigerantes estudados, Ž importante discorrer sobre o tipo de acidulante adicionado aos mesmos.

Acidulantes s‹o subst‰ncias adicionadas a alimentos e bebidas a fim de intensificar o seu gosto ‡cido (azedo), o que real�a o seu paladar, dando um sabor refrescante. Eles tambŽm regulam a do�ura do a�œcar e, por baixar o pH da bebida, inibem a prolifera�‹o de microorganismos, atuando como conservantes. Na escolha do acidulante, o fator mais importante Ž a capacidade de real�ar o sabor em quest‹o14.

Os principais ‡cidos utilizados como acidulantes s‹o: o ‡cido c’trico (conhecido como INS330) e tart‡rico (INS334), que s‹o org‰nicos, e o ‡cido fosf—rico (INS338), que Ž inorg‰nico. A esses alimentos tambŽm Ž comum se adicionar sais contendo os ‰nions desses ‡cidos, a fim de formar-se um sistema tamp‹o, capaz de evitar varia�›es bruscas de pH no meio. O sistema tamp‹o Ž composto de um ‡cido fraco e sua base conjugada (o ‰nion em quest‹o) 10.

O ‡cido c’trico Ž utilizado na maioria dos refrigerantes e sucos industrializados, principalmente naqueles de sabor lim‹o, laranja e guaran‡. Trata-se de um ‡cido fraco, tricarbox’lico, podendo dissociar para o meio tr�s ’ons hidrog�nio. Assim, ele possui tr�s valores de pka: pka1 = 3,13; pka2 = 4,76; pka3 = 6,40. Isso resulta na presen�a de tr�s regi›es de tamponamento distintas, respectivamente: entre pH 2,13 e 4,13; entre pH 3,76 e 5,76 e entre pH 5,40 e 7,40.

O ‡cido tart‡rico, tambŽm org‰nico, presente naturalmente nas uvas, Ž utilizado nas bebidas ˆ base de uva, como acidulante, e para dar a pigmenta�‹o caracter’stica das mesmas. Ele pode doar ao meio dois ’ons hidrog�nio. Assim, ele possui dois valores de pka: pka1 = 2,98 e pka2 = 4,34, o que resulta na presen�a de duas regi›es de tamponamento distintas, respectivamente: entre pH 1,98 e 3,98 e entre pH 3,34 e 5,34.

J‡ o ‡cido fosf—rico, adicionado aos refrigerantes ˆ base de cola, pode ser considerado semi-forte. Como tambŽm pode liberar tr�s ’ons hidrog�nio para o meio, possui tr�s valores de pka: pka1 = 2,15; pka2 = 7,20; pka3 = 12,35. Isso resulta na presen�a de tr�s regi›es de tamponamento distintas, respectivamente: entre pH 1,15 e 3,15; entre pH 6,20 e 8,20; e entre pH 11,35 e 13,35.

Assim, como o ‡cido fosf—rico Ž um dos mais fortes dentre os acidulantes adicionados ˆs bebidas, possuindo um dos menores valores de pka (2,15), o que resulta em um menor pH, justifica-se o menor pH das bebidas ˆ base de cola. Entretanto esse argumento n‹o Ž v‡lido para os baixos valores de pH do refrigerante sabor lim‹o (VittÕs Lim‹o), que deve conter ‡cido c’trico.

Jendosttir et al. (2006)13 acreditam que a eros‹o dental depende exclusivamente do pH das bebidas, porŽm outros trabalhos sugerem que o n’vel de titrabilidade ‡cida Ž tambŽm muito importante na avalia�‹o do potencial erosivo de bebidas ‡cidas 4, 12.

Em rela�‹o ˆ titrabilidade ‡cida, de uma maneira geral, os refrigerantes Fanta Uva, Fanta Uva Zero, Fanta Laranja, Fanta Laranja Zero, Guaran‡ Ant‡rtica, Guaran‡ Ant‡rtica Zero, Guaran‡ Kuat Zero e Pepsi Light Plus foram os que necessitaram de menos base para que se atingisse os valores de pH desejados. J‡ para o Vitt`s Lim‹o e a Coca-Cola Zero foram necess‡rios uma quantidade maior de base. Para a Coca-Cola, Coca-Cola Plus, Pepsi Light e Dolly Cola foi preciso uma quantidade intermedi‡ria de base.

Especificamente para titrabilidade ‡cida a pH 4,5, verificou-se um tamponamento mais f‡cil das bebidas ˆ base de cola, o que se justifica pelo fato do ‡cido fosf—rico, contido nas mesmas, n‹o ser um bom tamp‹o em pH 4,5, como os ‡cidos c’trico e tart‡rico s‹o. J‡ no pH 7,0, os dados obtidos s‹o contradit—rios com o esperado em fun�‹o dos acidulantes presentes nos refrigerantes. Esperava-se que os refrigerantes contendo ‡cido c’trico apresentassem a mesma grande dificuldade em serem tamponados, pelo fato de a adi�‹o de base ter que ser necess‡ria para transpor a regi‹o de tamponamento em torno do pka3 do ‡cido c’trico (6,4). Entretanto o refrigerante VittÕs Lim‹o foi um dos mais dif’ceis de ser tamponado, enquanto os demais contendo ‡cido c’trico foram tamponados com quantidade menor de base. ƒ importante ressaltar que a composi�‹o dos refrigerantes Ž bastante variada, contendo muito mais ingredientes do que os acidulantes citados, com base no sabor dos mesmos. Assim, pode haver outras subst‰ncias que tenham influenciado nos resultados obtidos.

Observou-se que n‹o houve correla�‹o entre o pH inicial das bebidas e a quantidade de base adicionada para que se atingisse o pH 4,5. J‡ para atingir o pH 7,0, observou-se uma correla�‹o negativa e significativa com o pH da bebida, ou seja, quanto maior o pH, menor a quantidade de base necess‡ria. E houve correla�‹o positiva significativa entre os valores de titrabilidade ‡cida para pH 4,5 e 7,0, ou seja, quanto maior a quantidade de base necess‡ria para que se atingisse o pH 4,5, maior tambŽm para o pH 7,0. Dessa forma, n‹o se pode estabelecer uma regra que demonstre que as bebidas com menor pH necessitam de mais base para que o pH se eleve, como ocorreu para Vitt`s Lim‹o e Coca-Cola Zero. Os refrigerantes Coca-Cola, Cola-Plus, Pepsi Light e Dolly Cola mesmo tendo o pH baixo, necessitaram de uma quantidade intermedi‡ria de base. Isso est‡ coerente com o fato dessas bebidas possu’rem em sua composi�‹o ‡cidos fracos diferentes, e consequentemente regi›es de tamponamento distintas.

Finalmente, embora Willershausen & Schulz-Dobrick (2004)15 afirmam que n‹o Ž poss’vel avaliar totalmente em estudos in vitro o efeito das bebidas ‡cidas sobre os dentes, devido ao fato que muitos fatores influenciam o ambiente oral, tanto forma de ingest‹o, tempo de ingest‹o, condi�›es da saliva e seu efeito tamp‹o, os resultados encontrados demonstram o potencial erosivo dos refrigerantes testados e dificuldade em neutraliz‡-los. Sendo assim, Ž importante que o cl’nico  tenha o conhecimento desses dados para trabalhar na preven�‹o de les›es de eros‹o dental com seus pacientes, visto que estudos mostram que o Brasil Ž o terceiro maior produtor de refrigerantes do mundo, atr‡s apenas dos Estados Unidos e MŽxico16. AlŽm disso, de acordo com o MinistŽrio da Saœde (2010)17 os refrigerantes e sucos artificiais participam ativamente da dieta do brasileiro. Ao todo, 76% dos adultos bebem esses produtos pelo menos uma vez na semana e 27,9%, cinco vezes ou mais na semana. O consumo regular, quase todo dia, aumentou 13,4% em um ano. Entre os mais jovens, de 18 a 24 anos, o ’ndice Ž ainda maior, 42,1% bebem refrigerantes quase todos os dias e est‹o sujeitos ao desenvolvimento de les›es de eros‹o dental.

CONCLUSÌO

            Todos os refrigerantes avaliados possu’am pH abaixo do pH cr’tico para desmineraliza�‹o dental, havendo diferen�a nos valores de pH e titrabilidade ‡cida em fun�‹o de seu sabor.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos ao PIBIC-UnG pela concess‹o de bolsa de Inicia�‹o Cient’fica a aluna Aline Verona.

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* Aline Verona - Aluna de Gradua�‹o em Odontologia da Universidade Guarulhos- UnG. e-mail: aline_verona@hotmail.com

** Alex Sandro Teixeira de Oliveira - Enfermeiro e Aluno de Gradua�‹o em Odontologia da Universidade Guarulhos - UnG. e-mail: alex-sandro-3@hotmail.com

*** JosŽ Augusto Rodrigues – Mestre e Doutor em Cl’nica Odontol—gica- ‡rea de Dent’stica e Professor da Universidade Guarulhos - UnG. e-mail: jrodrigues@prof.ung.br

**** Ynara Bosco de Oliveira Lima-Arsati – Mestre em Odontologia ‡rea de Farmacologia, Anestesiologia e Terap�utica, Doutora em Odontologia area de Cariologia, Professora da Universidade Federal de Feira de Santana – UFFS. e-mail: ynaralima@yahoo.com